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domingo, 29 de março de 2015

[Teatro] Mulheres de Otelo, de Claudio Hochman


Título: Mulheres de Otelo
Local: Teatro da Trindade (Sala Estúdio)
Texto: Claudio Hochman (a partir de William Shakespeare)
Encenador(a): Claudio Hochman
Elenco: Sofia Ângelo, Rita Martins e Samanta Franco
Produção: Teatro de Carnide

Sinopse:
Na peça de “Otelo” de Shakespeare há três mulheres. A famosa Desdêmona, mulher do Mouro, a dubitativa Emília, mulher do malvado Iago, e Branca, a prostituta que namora com o destituído tenente Cássio.

Em “ Mulheres de Otelo”, uma produção do Teatro de Carnide, conta-se a história destas três mulheres, as suas visões, suas posturas, seus pensamentos, suas relações, suas incertezas… Também através delas se conta a história de Shakespeare, desta vez na ausência de homens em palco. Um espaço vazio para se encher de emoções. Um jogo onde as palavras e a ação desnudam o mundo das personagens e das atrizes. Uma visita ao mundo shakespeareano numa perspetiva contemporânea.

Opinião Carla:
Esta produção do Teatro de Carnide, Mulheres de Otelo, encenada por Claudio Hochman, já esteve em cena no próprio espaço do Teatro de Carnide, no final do ano passado, e já nessa altura queria ter ido assistir ao espectáculo. Coisa que acabou por não acontecer. Mas quando fui assistir a Macbeth (podem encontrar a crítica aqui), também encenado por Claudio Hochman, e me disseram que iam fazer uma reposição de Mulheres de Otelo no Teatro da Trindade não pensei duas vezes. Tinha que ir.

Confesso que a peça que serviu de ponto de partida para este espectáculo faz parte da minha lista de futuras leituras, querendo isto dizer que o meu conhecimento sobre a história limita-se apenas a pequenas pesquisas sobre a mesma.

Mulheres de Otelo foi levada à cena na Sala Estúdio do Teatro da Trindade - uma sala pequena no úlitmo andar. A cenografia era simples, limitava-se ao fundo negro da própria sala, lâmpadas penduradas do tecto de cor branca, azul e vermelha, três puffs quadrados, um balde, uma esfregona, uma pá e uma vassoura. Em palco estavam apenas três actrizes, as três mulheres da peça Othello de William Shakespeare: Emília, a aia; Desdemona, a senhora; e Branca, a prostituta preta. Duas das actrizes eram-me já familiares, as que faziam de Emília e de Branca, as mesmas que em Macbeth tinham feito duas das três bruxas.

Neste espectáculo acompanhamos a vida e as peripécias das três mulheres: Emília, Desdemona e Branca. Há uma relação entre as personagens, as actrizes e o público. Cada atriz encarnava uma das mulheres da peça, mas muitas vezes a actriz sobressaía em relação à personagem e falava directamente com o público, e também entre elas. A certa altura esta separação, e ao mesmo tempo fusão, torna-se quase imperceptível e ficamos no limite a tentar perceber se estamos perante a actriz (que não deixa de ser uma personagem) ou a personagem. Para um espectáculo baseado numa tragédia, os momentos cómicos foram imensos, mas a tensão da tragédia também esteve bem presente. E foi este jogo entre o cómico e o trágico que torna o espectáculo tão interessante, tão aprazível e tão satisfatório.

Tenho a dizer que fiquei fã deste grupo de teatro e decididamente estarei de olho em futuros espectáculos produzidos pelo Teatro de Carnide. Ambos espectáculos a que assisti foram soberbos. Com a simplicidade de adereços, o aproveitamento do espaço e a forma como se entregam às personagens é do melhor que tenho visto. Como disse na minha crítica a Macbeth, Claudio Hochman, o encenador de ambas as peças que assisti produzidas pelo Teatro de Carnide, mostra que se pode fazer um grande espectáculo sem grandes cenas rebuscadas, sem grande alarido visual, mas ainda assim criar uma atmosfera e um ambiente visual bastante interessante. Houve a recorrência ao jogo de luzes, de uma forma diferente que no espectáculo de Macbeth, mas que da mesma forma foi muito bem criada e executada.

Eu ia com algumas espectativas para este espectáculo, depois de já ter assistido a algo criado pelas mesmas pessoas e ter gostado tanto, e não desiludiu, antes pelo contrário. Adorei o espectáculo, adorei a cenografia, adorei a representação. Simplesmente adorei.





Opinião Joana:
Não sei bem o que estava à espera quando fui ver Mulheres de Otelo mas só posso dizer que foi uma agradável surpresa.

Numa sala estúdio bastante confortável estavam muitas lâmpadas penduradas cujas cores variavam entre azul, vermelho, amarelo e branco. Estavam em palco três mulheres, todas de vermelho, com fatos diferentes: Desdémona, Emília e Branca, cada uma sentada num puff quadrado preto.

Numa peça composta fisicamente só por estas três mulheres, isto poderia ser potencialmente problemático - contudo foi exactamente o oposto. Apesar de não existir qualquer elemento masculino no palco, conseguíamos quase sentir a presença masculina nas conversas que elas tinham, fosse com as lâmpadas que acendiam de acordo com a personagem que estaria nesse momento em palco ou de acordo com o seu estado de espírito, fosse com o movimento criado pela passagem das mulheres pelas lâmpadas ou pelo movimento que por elas era induzido.

A nossa atenção era constantemente captada pela interpretação das actrizes com um humor fantástico (o quão piamente Desdémona acreditava que o trabalho do seu pai, um político, era fazer as pessoas felizes), que conseguia fazer-nos rir num momento ou ficar com o coração apertado pela ira que as personagens masculinas (ainda que não estivessem fisicamente em palco) mostravam pela reacção das mulheres.

O público acaba por ter também aqui um papel importante e algo participativo, dado que nos foram colocadas perguntas que nos fizeram rir e o facto de muitas vezes as actrizes focarem-se num elemento masculino do público para dizerem e interpretarem as falas acabou por levar as pessoas a fixarem-se muito mais na peça e no texto.

Gostei muito do espectáculo de luzes e movimento e não sei que mais elogios possa fazer às actrizes, foram fantásticas e as suas interpretações levaram-nos para as suas respectivas histórias de vida, onde nos identificamos com o apaixonar de Branca, uma prostituta (ela referia-se a si própria como Branca, a Puta) que se apaixona pela primeira vez e que acaba por duvidar do seu valor para o homem que ama (não passamos nós por fases em que podemos duvidar do nosso próprio valor em algum ponto da nossa vida?), Emília, a criada que acaba casada com Iago, um homem violento, maldoso e cruel e Desdémona, que se apaixona por Otelo, pensando que ele é uma pessoa e ele acaba por mostrar ser alguém bem diferente do que ela achava (soa familiar?).

Em conclusão, uma peça fantástica que nos prende do início ao fim, com interpretações fortes e seguras, que mostram a qualidade das actrizes, com um ambiente simples mas que é mais que suficiente para dar destaque ao texto e a quem o executa.



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